Trabalhadores sem-terra de acampamentos ameaçados de despejo em Murici ocupam ITERAL

Há mais de 10 anos as centenas de famílias dos acampamentos Bota Velha e Sede contribuem com a alimentação da população da zona da mata




Na manhã desta quarta-feira, 7 de fevereiro, camponeses, ameaçados de despejo de seus lares, ocuparam o Instituto de Terras de Alagoas (Iteral), localizado na Avenida da Paz, em Jaraguá.

 

Os manifestantes vieram de dois acampamentos que há mais de uma década de existência produzem alimentos sem uso de agrotóxicos comercializados e consumidos nos municípios da zona da mata alagoana e durante feiras da Reforma Agrária e Camponesas em Maceió. As áreas foram visitadas na semana passada pelo Centro de Gerenciamento de Crise da Polícia Militar, motivado pelo pedido de reintegração de posse realizado pela Usina Santa Clotilde.

 

As ocupações das Fazendas Bota Velha e Sede, situadas no município de Murici, ocorreram em 2001 e 2002, acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra de Alagoas (CPT/AL) e pelo Movimento de Libertação dos Trabalhadores Sem Terra (MLST), respectivamente. Cada uma é composta por mais de 100 famílias que possuem produção agroecológica de vários alimentos (como hortaliças, macaxeira, inhame, abóbora, feijão, melancia, bananas e laranjas) e criação de animais (a exemplo de galinhas, ovelhas, patos e peixes).

 

As terras da Usina São Semeão eram abandonadas e improdutivas quando foram ocupadas por trabalhadores rurais, muitos deles vindos do trabalho escravo nos canaviais. Possuem um histórico de dívidas com o Estado, INSS, companhia energética e débitos trabalhistas. Em 2005, foram arrendadas à Usina Santa Clotilde, que passou perseguir as famílias acampadas, com a destruição das lavouras e ameaças de despejo.

 

“Essas terras foram tomadas pelo INSS e são da Fazenda Nacional. Portanto, o proprietário é o Estado Brasileiro. Elas não cumprem a função social e devem ser destinadas para a Reforma Agrária”, explicou Josival Oliveira, coordenador do MLST.

 

Caso ocorra a reintegração de posse, as centenas de famílias que vivem, estudam e trabalham nos acampamentos ficarão ao relento, pois não têm para onde ir. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não tem outra área na região que possa ser apresentada e transformada em assentamento. A expectativa é de uma negociação com o Iteral.

 

Para a Comissão Pastoral da Terra de Alagoas (CPT/AL), faz-se necessário que uma solução seja encontrada a favor de que as famílias permaneçam na terra e tenham uma vida digna no campo, ao invés de se somarem aos dados de pessoas desassistidas pelo Estado e vítimas do êxodo rural, exploração e sofrimento.

 

Entenda os casos

 

Acampamento Bota Velha – Em 2001, as 102 famílias, acompanhadas CPT/AL, fixaram-se nas terras abandonadas da Usina São Semeão e as transformaram em produtivas. No local, existe energia elétrica, casas de taipa com telhas e algumas de alvenaria, inclusive, uma capela. Há, também, uma casa de farinha, instalada com recursos dos próprios camponeses, que, juntos, conseguem produzir cerca de 500kg deste alimento por semana. Bota Velha já resistiu à vários mandados de reintegração de posse, sendo o último em 2012, suspenso pela Vara Agrária de Alagoas, através do juiz de direito Ayrton de Luna Tenório.

 

Acampamento Sede – Com este nome devido ao fato de se situar na antiga Fazenda Sede da Usina São Semeão, o acampamento, liderado pelo MLST, conta com 120 famílias, que resistiram à nove tentativas de reintegração de posse, desde o ano de 2002. Os trabalhadores rurais ali alojados possuem, assim como em Bota Velha, uma grande produção diversificada de alimentos.